Coronel Sapucaia
Integrante do Clã Haidar usava sedã com blindagem proibida para civis
Veículo foi encontrado em local alvo de busca contra família suspeita de comandar esquema do tráfico
MARTA FERREIRA DE JESUS / CAMPO GRANDE NEWS
No meio da frota de veículos apreendidos nesta semana durante Operação Ifrit, da Polícia Federal, contra o Clã Haidar, suspeito de tráfico internacional de armas e drogas, passou despercebido um Chevrolet Vectra preto. O sedã - do modelo que liderou a categoria dos médios na década de 2000, e parou de ser produzido em 2011 - estava entre veículos mais chamativos, como um Mustang Shelby vermelho, um Ford do ano 1920, daqueles de colecionador, um jipe azul charmoso, camionetes Toyota Hilux, entre outros. Embora menos atraente aos olhos em 2026, o Vectra traduz o tamanho do investimento em segurança do clã sob suspeita de comandar o esquema milionário e “ultraviolento' de narcotráfico alvo da ofensiva policial. Fabricado em 2005, modelo 2006, o carro tem blindagem nível 4, a máxima realizada no Brasil, proibida para civis.
O bem está registrado como propriedade da empresa Adel Hassan Haidar ME, em Ponta Porã. A firma, oficialmente dedicada ao ramo de hospedagem, tem o nome de um dos integrantes da família alvo da operação policial. Segundo a investigação, a estrutura criminosa foi responsável pela movimentação, em dois anos, de meio bilhão de reais em negócios ilegais.
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Conhecido como Adule, o dono do veículo está preso, entre as 25 pessoas com ordem de prisão decretada a pedido da Polícia Federal. O automóvel estava no local indicado como escritório dele, na Rua São Sepé, em Campo Grande, endereço de busca e apreensão durante a fase de campo da Operação Ifrit. Quase cem tiros - Conforme apurou o Campo Grande News com fontes policiais, Adel Hassan Haidar, de 60 anos, passou a utilizar o Vectra depois de sobreviver a um atentado no qual foram disparados mais de cem tiros contra ele. Quatro o teriam atingido.
Não foi identificada pela reportagem uma ocorrência no Brasil sobre o episódio. A hipótese levantada no meio policial é de que o atentado pode ter ocorrido no Paraguai, onde a família também tem negócios, ou ainda não ter sido comunicado às autoridades. A reportagem não localizou a defesa de Adel Assan Haidar. O espaço está aberto para manifestações.
O nível de blindagem demonstra o grau de proteção exigido pela atividade de risco desenvolvida pelos Haidar, conforme as descobertas da Polícia Federal.
Trata-se de uma proteção balística de uso restrito, superior à permitida para veículos particulares, e capaz de oferecer resistência contra disparos de armamentos de alta potência.
Na legislação brasileira, o uso é institucional, para viaturas ou ainda carros de transporte de valores. O Vectra também tem sirene, equipamento autorizado só para carros de emergência e segurança pública.
Clã fortemente armado - A decisão judicial que fundamentou a Operação Ifrit descreve a organização familiar como uma estrutura com divisão de tarefas, operadores financeiros, responsáveis pelo transporte de drogas, seguranças e integrantes encarregados de administrar os negócios familiares. No núcleo de apoio às atividades criminosas, havia agentes de segurança pública, entre eles o delegado Hoffman D´Ávila, que já chefiou duas unidades da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul especializadas em combater o tráfico e o crime organizado. Hoffman aparece em imagens captadas participando de uma festa com karaokê numa casa que seria de Adel, e em outras situações junto ao suspeito de ser um dos cabeças da organização familiar do narcotráfico.
Além do uso de outros veículos blindados, o Gise (Grupo de Investigações Sensíveis) da PF constatou alto investimento em equipamentos de comunicação e de vigilância, como drones e circuito interno de câmeras, e ainda mecanismos de contrainteligência. O grupo, segundo a apuração policial, mantinha bunkers, destinados a abrigar a milícia criada para proteger integrantes do grupo e, se preciso, atacar inimigos.
O arsenal citado na investigação inclui fuzis, metralhadoras calibre .50, granadas e pistolas. Uma parte considerável foi apreendida quando às equipes foram às ruas.
Negócio de blindagem - O interesse da família por veículos com proteção extra também aparece em conversas analisadas pela Polícia Federal. A decisão judicial menciona gravações de visitas a Maroan Fernandes Haidar Ahmed, sobrinho de Adel e filho do irmão dele, Bassan Hassan Haidar, no Presídio Federal de Porto Velho (RO), onde cumpre pena por homicídio. Os diálogos indicam que ele continuava a participar de decisões relacionadas aos negócios familiares mesmo durante o período de prisão.
Entre os assuntos identificados pelos investigadores está a sociedade em uma empresa de blindagem de veículos. A documentação a que a reportagem teve acesso, contudo, não permite afirmar que essa firma tenha sido responsável pela blindagem do Vectra de Adel. A blindagem nível IV, capaz de resistir a disparos de armamentos de alta potência, não é permitida em veículos particulares pelas regras gerais do Exército Brasileiro. Portaria de 2026 estabelece o nível III-A como limite regular para automóveis civis e admite o nível III em situações excepcionais.
Pelo artigo 16 do Estatuto do Desarmamento, é prevista pena de três a seis anos de prisão, além de multa, para a posse ilegal de armas de fogo, acessórios de armas ou munições de uso restrito. A instalação ou utilização de sirene pode configurar infração grave de trânsito, conforme o artigo 230, inciso XII, do CTB (Código de Trânsito Brasileiro). A punição é multa de R$ 195,23, cinco pontos na CNH (Carteira Nacional de Habilitação) e retenção do veículo para regularização.
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