Coronel Sapucaia
Fabricando gelo no inferno ou como combater o calor sem máquina
MáRIO SéRGIO LORENZETTO / CAMPO GRANDE NEWS
Os cientistas da climatologia preveem um verão tórrido. Vamos assar, dizem. Aparelhos de ar condicionado e ventiladores são a solução. Willis Carrier, em 1.902, criou o primeiro aparelho de ar condicionado. Bem antes, em 1.882, Schuyler Wheeler, colocou à venda os primeiros ventiladores. Mas a história da refrigeração é muito mais antiga e fenomenal. Há dois mil e quatrocentos anos, na Pérsia, atual Irã, alguém foi muito mais inteligente.
Uma torre de barro para combater o calor. Imaginem. Brotando da areia uma coluna de barro com forma de colmeia gigante apontando ao céu. É um “yakhchãl'. Significa, literalmente, “poço de gelo'. Dentro dele, os iranianos fabricam gelo. Tinham há mais de dois mil anos, uma ótima compreensão da física. Entendiam que, com essas torres, em verdade “chaminés ao contrário', capturariam a brisa. O truque era não lutar contra o deserto. Sabedoria que deveríamos aprender. Seu pior inimigo, o deserto, tornou-se amigo. Eles perceberam que durante a noite o céu se converte em uma máquina de água. O calor do sol escapa para cima, sem vapor de água que o retenha, e a temperatura cai drasticamente, faz frio. Eles chamam esse fenômeno de “vingança noturna'. O gelo que fazem no yakhchãl aguenta o verão inteiro.
O ventre do yakhchãl. A parte interna dessa torre é a outra metade do prodígio. Escavavam vários metros e fazem uma parede muito grossa, de dois ou mais metros de espessura. Aplicam nessa parede uma mistura de areia, argila, clara de ovo, cinzas e pelo de cabra em proporções precisas. Torna-se um poço impermeável. À partir desse poço, constroem dutos que levam a água gelada até as residências. São os “qanats', aquedutos que se estendem por quilômetros.
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